Videojogo ou Desperdício de Tempo?

É um problema para resolver. Não é preciso que o jogo seja necessariamente difícil. É preciso que me leve a querer aplicar o método científico: face a um problema, postular uma hipótese, fazer a experiência, e avaliar os resultados.

Não tem piada quando a resposta a todos os desafios de um jogo é simplesmente ter mais prática nos dedos ou arranjar equipamento melhor e tentar outra vez.

Tem piada quando a resposta é saber quais as habilidades a utilizar, qual o equipamento certo para a situação específica.

Sid Meyer continua a ter a melhor definição de “bom jogo”: uma sucessão de escolhas interessantes.

Quando a progressão de um jogo é meramente acerca de ganhar calo nos dedos, ou repetir tarefas várias vezes até conseguir melhorar o nível da personagem, isso não são escolhas interessantes. Isso é só o jogo a encher chouriços, a fazer render o peixe.

Uma escolha interessante é equilibrar o equipamento no DarkSouls para conseguir rebolar e correr mais rápido faço ao Capra Demon. É experimentar várias posições no cenário para descobrir qual a melhor posição para evitar ser flanqueado ou atacado pelas costas.

Uma escolha interessante é optimizar o equipamento, a escolha de talentos, e a sequencia em que se usam as habilidades numa das classes de World of Warcraft ou Diablo III – e sim, é possível ver as combinações “ideais” num site, mas o que é ideal para o jogador-protótipo pode não se adaptar ao nosso estilo de jogo. A decisão mantém-se.

Um problema para resolver, e a possibilidade de experimentar vários caminhos para chegar à solução; é essa a diferença entre um jogo e um desperdício de tempo.

God of War (2005 – 2018)

God of War, 2005:

O jogo começa no meio da tempestade; o navio do jogador está a ser atacado por uma hidra; nos primeiros 10 minutos de jogo, o jogador confrontou e matou uma das criaturas mais famosas da mitologia grega.

God of War, 2018:

O jogo começa com um funeral. Nos primeiros 10 minutos, o jogador confronta e mata um trio de inimigos banais, que parecem arrancados do último episódio d’ A Guerra dos Tronos.

God of War, 2005:

Os gráficos eram bons para a época; hoje estão datados, mas ainda têm um certo charme. A câmara panorâmica dá uma boa sensação da escala épica do mundo.

God of War, 2018:

É possivelmente o jogo mais bonito que alguma vez joguei. A fidelidade visual é um verdadeiro tour de force para exibir as televisões 4K. A iluminação em HDR faz os olhos doer se olharmos directamente para o Sol. Os detalhes são impressionantes, cada milimetro de cenário, de pele das personagens, cada fibra das armaduras… Parece único e real.

God of War, 2005:

À medida que o jogo progride, vamos confrontando e derrotando bestas míticas do folklore grego, culminando com um confronto final com Ares, o titular Deus da Guerra. A nossa personagem é feita gigante, e ambos os titãs combatem amiúde uma cidade em chamas cujos edifícios lhes dão pelos calcanhares. Nesta batalha final, o jogador tem que aplicar todas as técnicas e habilidades com que se foi familiarizando ao longo do jogo.

God of War, 2018:

Com um par de excepções, todos os bosses são repetições dos bosses encontrados nas primeiras 2 horas de jogo. O confronto final é contra um deus que será quase desconhecido para todos os que não tiverem uma familiaridade mais intima com o panteão escandinavo – e não mais que uma versão “apimentada” de um confronto decorrido nas primeiras horas de jogo. Esta batalha final é trivialmente simples se o jogador tiver dedicado algumas horas a explorar o mundo e recolher equipamento melhor.

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God of War (2005) foi um jogo feito com um orçamento modesto, e que sofria das limitações técnicas da altura. Mas impressionava a cada hora, mostrando-se a cada passo mais ambicioso, mais capaz de surpreender, mais épico. Este é um jogo que jogou com o baralho todo, sem dar tréguas, na ambição única de proporcionar ao jogador o maior êxtase possível.

God of War (2018) é um jogo que terá custado mais a produzir do que o PIB de alguns países Africanos. É o zénite da fidelidade gráfica e sonora da industria, e conta com fantásticas performances de actuação digital. Mas descarrega quase todos os seus canhões criativos no primeiro par de horas, e a partir daí, é trabalho. É um jogo que repete todos os seus momentos impressionantes até os tornar banais, e que parece ter medo de usar toda a matéria-prima que a mitologia escandinava lhe proporciona, já a pensar no que terá que guardar para a obrigatória sequela.

God of War (2005) não é o melhor jogo da geração, nem da consola que o viu nascer, nem mesmo do género de acção a que pretence. Mas é um produto de entretenimento, e deu tudo por tudo para entreter.

Foi feito para ti.

God of War (2018) foi classificado por muitos como o melhor jogo do ano em que saiu, e por outros tantos como o segundo melhor. Mas é um produto industrial, e só entretém na medida em que é necessário entreter.

Foi feito para as pessoas que o fizeram, para as pessoas que pagaram para ele ser feito, para as pessoas que o iam analisar. Tu?

Tu nem chegaste ao terceiro lugar.

A Gentileza de um Desconhecido

Os melhores jogos online (ou com modos online) são aqueles que são desenhados para proporcionar momentos de cooperação espontânea. Ou seja, pensados para ser jogados a solo, mas de uma forma em que o nosso destino inevitavelmente se cruze com o de outros jogadores.

A maioria dos MMOs modernos funciona assim. Mesmo há 15 anos, poucos momentos eram mais fantásticos em World of Warcraft do que salvar um desconhecido (ou ser salvo por um) de uma emboscada inimiga. Mas mesmo o simples gesto de curar ou abençoar um estranho com que nos cruzávamos na estrada fazia o coração sorrir. No WoW moderno, estas situações são menos comuns, mas não impossíveis.

Mas o expoente máximo disso é, provavelmente, a série Dark Souls. São jogos que exigem mestria da parte do jogador, que não perdoam erros… A menos que… Encontremos a marca deixada pelo espírito de um outro jogador, pronta a ajudar-nos com informação acerca dos perigos que se avizinham, ou mesmo com uma mão espiritual para combater ao nosso lado. Até na morte, estes espíritos são generosos – podemos assistir aos seus momentos finais, e tentar deduzir o que os finou.

Não dá para combinar jogar Dark Souls com um amigo, pelo menos não sem grandes artimanhas. E isso é de propósito. Quem fez esses jogos não deixou nada ao acaso. A mensagem é poderosa: nos momentos mais negros, não há bálsamo como a ajuda inesperada de um desconhecido.

Imagem: Gotham Game Chronicles Flickr via Compfight cc

O Trono Quebrado

É uma tarefa ingrata, ser o novo jogo na série “The Witcher,” e é isso que Thronebreaker: The Witcher Tales é, por muita ginástica de título que faça. Mesmo sendo de um género diferente, vai ser sempre comparado, em termos de personagens e narrativa, a um dos jogos mais fortes de sempre nessas áreas.

Mas já lá vamos. Vale a pena dizer primeiro o que o jogo faz bem: a metáfora. Especificamente, a metáfora mecânica que traduz, através de cartas, os conceitos tácticos e estratégicos da guerra. É surpreendente a quantidade de situações que os criadores do jogo conseguem retratar através das várias habilidades características de cada carta individual, e a forma como elas modelam as simples regras básicas do tabuleiro de jogo.

Este factor, aliado à variedade crescente de cartas a que se ganha acesso para construir o baralho ao longo do jogo, abre a porta a uma quantidade impressionante de estratégias – algumas mais óbvias do que outras. É pena que, para além do modo competitivo de múltiplos jogadores, não haja nenhuma maneira de ver os baralhos que outros jogadores estão a utilizar, porque neste aspecto o jogo abre as portas à criatividade.

O problema é que a curva de dificuldade não incentiva muito à experimentação. O nível de poder do jogador já é tão alto logo no final do primeiro capitulo do jogo, que com base no simples aumentar de poder das cartas, dá para conduzir uma estratégia praticamente inalterada até ao final do jogo, cilindrando tudo e todos até chegar à batalha final, onde nos aguarda um inimigo final que subverte as regras do jogo de tal forma que aí sim, finalmente, nos obriga a pensar em como construir um baralho capaz de o defrontar.

O resultado é que, apesar da riqueza mecânica inerente às regras, quase tudo entre o primeiro capitulo e a dita batalha final é palha, um pular de batalha banal em batalha banal onde conduzirmos o nosso baralho sempre da mesma maneira, ocasionalmente pontuado por um confronto com um boss ou um quebra-cabeças em que nos é dado um baralho pré-definido e um objectivo específico a cumprir.

Resta a história para nos puxar ao longo das cerca de quarenta horas de jogo, e esta é mediocre.  Lá se ergue o espectro de Witcher 3, um jogo superficialmente acerca do confronto com um exercito invasor e um inimigo sobrenaturalmente poderoso, sim, mas na realidade, acerca de ser um pai a tentar proteger e formar o caracter da sua filha adoptiva. E, também, um jogo em que cada decisão nos saía do couro, nos levava a pensar nas consequências que dela poderiam advir.

O contraste é grande. Aqui temos uma personagem principal – a rainha Meve – que é uma mãe que se vê voltada contra o filho. No entanto, raras são as ocasiões do jogo em que isso parece ser um factor na vida interior da personagem. 

Em Witcher 3, Geralt era tinha uma personalidade bem-definida, e no entanto nela conseguimos encontrar justificação para qualquer decisão que tomássemos. Em Thronebreaker, Meve não é uma coisa nem outra; é uma unidimensional mulher de armas, uma tábua quase-rasa em que raras vezes nos é dada a oportunidade de talhar algum relevo. 

As decisões de maior impacto no jogo não são as que dizem algo acerca da personagem, mas sim as que nos levam a perder algumas cartas favoritas com base no nosso compasso moral. Isto, ao menos, é uma decisão corajosa – fazer com que as nossas escolhas tenham um impacto directo na nossa capacidade estratégica. 

É uma pena que os criadores do jogo não tenham apostado nesta vertente ao ponto de fazer com que as escolhas que afectam a moral do exército tivessem real consequência – nos mapas abundam formas fáceis de fazer subir a moral dos soldados, caso eles discordem dos nossos reais decretos.

Thronebreaker não é um mau jogo, mas também não é bom. Tem as sementes de um bom jogo, enterradas debaixo de um monte de palha e de uma vontade de apelar ao mínimo denominador comum. Falta-lhe a coragem que Meve tem em abundância: a coragem de decidir qual o curso que quer tomar e ser inflexível nesse curso, sem tentar placar os desagradados.

A Prenda Mais Importante Que Podem Oferecer Hoje

Às vezes, vale a pena fazer as coisas que gostamos.

Quando descobri que o Felipe Pepe estava a recrutar voluntários para o ajudar a criar um compêndio da história dos RPGs de computador soube imediatamente que queria participar.

Nunca imaginei que um dia, esse meu trabalho visse a ser parte de um livro em papel, e muito menos um livro cujos lucros do autor fossem 100% concedidos à caridade – neste caso, à instituição Vocação, que dá formação e encontra emprego para os jovens nas áreas mais desfavorecidas do Brasil. 

Mas assim aconteceu. Podem encomendá-lo aqui, e façam-no sabendo que uma vez feita a primeira impressão, acabou-se. É uma tiragem única e limitada.

Só posso agradecer ao Filipe em triplicado:

Obrigado por ter engendrado um projecto tão apaixonante.

Obrigado por ter suportado os meus atrasos e editado as minhas palavras para melhor.

Obrigado por ter encontrado e tomado a oportunidade de usar esse trabalho para melhorar o mundo.

Nem sempre os video jogos são um desperdício de tempo.

Os Mortos Que Andam

Hoje fiz uma coisa nova, uma coisa que nunca pensei vir a fazer. Uma coisa que nunca entendi porque é que as pessoas fazem.

Hoje vi alguém jogar um videojogo do principio ao fim, no YouTube. Foi o famoso Pewdiepie, a jogar o mais recente episódio do “The Walking Dead.”

Finalmente percebi porque é que as pessoas o fazem. É que é uma maneira de dar graça a um jogo terrível. Ver o Pewdiepie jogar não me deu vontade nenhuma de jogar o jogo; mais, convenceu-me que se o jogasse, seria um desperdício de tempo, um aborrecimento. 

O “jogo” quase não tem jogo, o enredo é patético, e o diálogo é péssimo. Salvo alguns momentos de tensão (que seriam muito mais potentes num filme), a única coisa de valor foi mesmo o comentário. Ter o YouTuber a comentar os ridículos daquilo que se assume como uma história dramática tem, realmente, piada.

Mas não escrevo isto para dizer que me converti ao culto do gamer sueco. É mesmo para constatar como a fraca qualidade, a falta de exigência, tomou conta do mundo dos videojogos. Pouco antes do Natal, a imprensa de videojogos uniu-se em solidariedade, noticiando a “terrível” perda que foi o fecho dos estúdios da Telltale Games, responsáveis pela série “The Walking Dead” em formato videojogo. 

(O episódio que o Pewdiepie jogou foi completado e lançado depois, por um outro estúdio que se incumbiu de terminar o trabalho do supracitado.)

Não sei como engolir isto. Por um lado, num nível pessoal e humano, sofro pelas pessoas que perderam o emprego e o sustento (e logo em vésperas de Natal). Por outro lado, não posso deixar de pensar que não precisamos de estúdios como a Telltale, que produzem este tipo de lixo. 

Porque isto é lixo. Em primeiro lugar, é um mau videojogo, pois quase não apresenta interactividade. Mas se fosse um filme, seria também um mau filme, pois as personagens não são interessantes, e a narrativa também não.   Há videojogos que padecem do mal de fraca interactividade, de não terem mecânicas interessantes, mas compensam com história, ou com espectáculo audiovisual.

Este jogo, está série, não tem nada disso. É um mero regurgitar do primeiro grande sucesso da Telltale, um jogo que nunca primou pela interactividade, mas que, pelo menos, na altura em que foi lançado, tinha qualidade audiovisual e era algo invulgar, fresco. E tinha personagens interessantes, e entre essas personagens geravam-se verdadeiros conflitos e tensões. 

Podia não ser um jogo fantástico, mas sabia a diferente, e brilhava noutros aspectos.

Mas desde então, a Telltale anda a ressuscitar o cadáver desse jogo, a fazê-lo arrastar-se pelo mercado todos os anos. E todos os anos tem um bocado menos de carne nos ossos, todos os anos cheira mais a podre, todos os anos tem um um olhar mais vazio nos olhos.

Como é que podemos justificar a existência de um estúdio que vive disto, de produzir – já nem digo arte – mas produto, entretenimento mediocre? Deve o público comprar estes jogos por pena, para justificar os empregos das pessoas que lá trabalham?

Pergunto-me como farão no mundo do cinema, quando um filme falha bombasticamente? Sou muito ignorante em relação a essa indústria, mas não me recordo de ouvir falar de grandes fechos de estúdios, de largas perdas de emprego. Será esse um modelo a replicar?

Não tenho resposta para esse drama humano. Só posso dizer que não choro a perda da Telltale como uma empresa, como um estúdio. 

Pode ser que agora, finalmente, os mortos tenham o merecido repouso.

Preservar Obras ou Preservar Memórias?

Ando sempre num vai-e-vem com os meus amigos dos videojogos, quando falamos acerca de como preservar as experiências de que gostamos.

É fácil reviver a experiencia de ler um livro, ver um filme, ou apreciar uma pintura. Nos tempos modernos, seria preciso um cataclismo para perder acesso a essas obras.

Já os jogos estão muito mais ligados ao período em que são lançados. São feitos especificamente para máquinas da época, e raramente correm nas suas sucessoras. Alguns transitam da sua era para as máquinas mais recentes, mas apenas os mais populares. A maioria da história dos videojogos não é jogável nas máquinas que se podem comprar hoje numa loja.

Mas os jogos online criam outro nível de dificuldade na preservação. Quando jogo World of Warcraft com amigos de longa data, ou Destiny 2 com o meu irmão, estou a jogar jogos que não existem inteiramente na minha “máquina”, mas num servidor mantido por uma companhia que só o continuará a fazer enquanto for lucrativo.

E mesmo que por algum milagre a companhia se esquecesse que a sua função é ter lucro, e decidisse manter o serviço activo indefinidamente como um gesto de boa-vontade para com os fãs do jogo, a natureza destes jogos continua a ser uma de evolução constante, e portanto é quase impossível replicar uma experiência passada.

Mesmo quando a Blizzard, a produtora de World of Warcraft, declara que vai lançar uma versão do jogo que simula a realidade do jogo há 13 anos, faltam lá as pessoas. O que fez Warcraft ser uma parte indispensável da minha vida há 13 anos era o bando de aventureiros com que me dava, os amigos e amigas com que travei conhecimento e dei os meus primeiros passos nesse mundo online – e a descoberta de um tipo de jogo que nessa data ainda estava cheio de mistério.

Da mesma forma, não será possível replicar daqui a 10 anos as aventuras que eu e o meu irmão vivemos hoje no mundo de fantasia espacial de Destiny 2. Mesmo que o jogo continue por cá, já não vai ser o jogo que jogamos hoje. E mesmo que os responsáveis por ele lancem uma versão a “imitar” este momento histórico do jogo, eu e o meu irmão já não vamos ser as mesmas pessoas, já não o vamos jogar da mesma maneira.

Não sei se os video jogos serão “preserváveis” no mesmo sentido em que preservamos as obras do antigamente. Um video jogo como Destiny 2 ou World of Warcraft é mais como uma tarde de Verão passada com amigos em volta de uma mesa no Alentejo rural. Ou como o primeiro namoro na escola.

Dá para ter recordações – uma lembrança, uma fotografia, um diário – mas não dá para repetir.

A idea da Bungie, produtora de Destiny, é muito interessante.  Aos jogadores que cumprem certos requisitos – façanhas difíceis de cumprir no jogo, coisas dignas de nota – permitem-nos comprar certas “recordações”, coisas que não estão à venda ao público geral. Medalhas, replicas das armas conquistadas, ou uma t-shirt comemorativa. 

Todas estas coisas têm valor, são de tiragem limitada, mas crucialmente, só têm significado para as pessoas que “cumpriram” esses objectivos. São recordações da viagem e das conquistas no jogo, da mesma maneira que um viajante pode comprar coisas típicas dos lugares exóticos que visita, e a que provavelmente não voltará.

Gostava de ver mais produtoras de video jogos a seguir este paradigma. Aceitem que o videojogo é, mais do que uma peça de arte, uma experiência; que tem mais a ver com uma viagem, uma refeição, ou uma aventura ao ar livre do que com uma peça de museu. 

E concentrem-se mais em oferecer-nos maneiras de recordar essa experiência, do que em sugerir-nos que a voltemos a repetir.

A Filha do Mar

Há uma certa qualidade que só o tempo nos traz. Quem conta histórias há tempo suficiente, com consistência e sem ordenhar os seus mundos e personagens de forma predatória, consegue erguer uma grande obra, bem alicerçada. 

A maioria dos produtores de videojogos cria décadas de história para um só produto. Uma canção pode referir-se a eventos de há 10 anos atrás no mundo de jogo, mas é uma medida de tempo artificial – o jogador sente que a génese da canção e da história que lhe deu origem é a mesma. 

A produtora de videojogos Bioware sofre disso: sempre a pular de universo em universo em função das modas, da criatividade volátil, quase infantil dos seus artistas, e das exigências dos seus investidores, nunca consegue que os seus mundos criem um passado histórico de forma orgânica. Tem que ser tudo pensado de uma assentada, ou ao longo de uma única geração de consolas.

No extremo oposto, e mais raro: a produtora Blizzard cultiva os mesmos universos há mais de vinte anos. Pode-se discutir o quão manchada a sua arte se foi tornando, em virtude de crescente pressão corporativa. Mas não se pode negar a consistência narrativa. O resultado é que em 2018 podem lançar uma obra musical baseada em factos “históricos” com 15 anos de existência, não em tempo no universo de jogo, mas no nosso tempo.

Há aqui mais do que um orçamento colossal e talento artístico impecável. Há uma vivência, uma história que refinou com o passar dos anos. Aposto que várias pessoas que trabalharam nisto estavam há quinze anos a viver os eventos que são hoje retratados em canção.

A maioria dos produtores de videojogos parece pensar que dinheiro faz arte. O dinheiro ajuda. Mas o que faz arte são os anos.

O Efeito Tetris

Comprei o Tetris Effect, uma manobra que me é pouco característica. O desejo de ter mais jogos para jogar em realidade virtual, combinado com um forte apego à obra de Tetsuya Mizuguchi, levou a melhor.

A primeira impressão é que falta qualquer coisa. É estranho ver uma celebração que evoca tão pouco do espirito do original. Estava à espera de ver alguma referência àquela musica icónica, qualquer efeito pirotécnico que soubesse a russo. Qualquer coisa que me avivasse a memória de ser hipnotizado por aquele jogo tão simples mas tão diabólico, em frente ao Amiga 500 do meu primo.

Mas em vez disso, esta é uma celebração de globalismo, de ritmos brasileiros e africanos e do espirito de discoteca europeu com que eu cresci e mais uma pitada dos ambientes sonoros asiáticos à mistura. 

O jogo Tetris aqui não é o centro da atenção; é a ferramenta que nos transporta numa viagem audio-visual em torno do mundo, pelas profundezas do oceano, e, ocasionalmente, para lá do planeta. É um espetáculo de metáforas sonoras, visuais e culturais em que a unidade de ligação é o jogo Tetris. 

E de certa forma, faz sentido. Tetris é um dos poucos jogos que se pode gabar de ser um fenómeno mundial. Já quando foi lançado na sua famosa encarnação GameBoy, foi um dos jogos que conseguiu apelar a milhões fora daquele circulo restrito dos “fãs de video jogos.” Ainda hoje, poucos foram os jogos que conquistaram tal façanha, e, se os entendidos na matéria podem debater as virtudes artísticas desses outros jogos “para todos”, as credenciais de Tetris são inabaláveis. É um jogo inesquecível, inesquecivelmente viciante, e forte candidato ao título de melhor jogo de sempre.

Que melhor jogo para nos levar a dar uma volta ao mundo, do que um dos poucos que foi jogado e amado em todos os países, por todas as culturas?

O que Mizuguchi conseguiu aqui fazer é o que o distingue como um artista, por oposto a um mero criador de jogos. Ele conseguiu ver para lá do jogo, das componentes estéticas e mecânicas, e entender o que é que o jogo significa num contexto cultural, no contexto da experiência humana. De seguida, retratou isso mesmo no seu tributo.

Continuo a sentir falta daquela iconografia e sonoridade russa. Mas foi uma viagem e pêras.

Dezasseis Anos de ene3

A ene3 foi um projecto fundado em 2002 pelo DJ_MiND, numa era em que a internet ainda era movida a telefone e os modems faziam barulhos diabólicos sempre que se ligavam. Juntando um punhado de amigos dos fóruns do Sapo, o DJ criou um site dedicado à divulgação dos jogos e consolas da Nintendo, em Portugal – e pouco depois, expandiu-o para abranger todas as plataformas.

A data altura da vida do site, encontrei-me como custódio do mesmo. Nem sempre fiz o melhor trabalho, e tentei, algumas vezes, com diferentes níveis de sucesso, passá-lo a pessoas com maior capacidade do que eu. Mas acaba sempre por voltar às minhas mãos.

Hoje a ene3 faz 16 anos. Não foram 16 anos de actividade, porque às vezes a vida mete-se no caminho. 

Não sei ao certo o que fazer com ela, admito. A minha relação com os videojogos não é aquela que já foi; cada vez os acho menos dignos de qualquer tipo de análise para além da mais superfícial. Todas as semanas luto com essa ideia, tento aprender um pouco mais sobre videojogos, sobre o que representam, sobre o seu valor como forma de expressão artística, para criadores e para jogadores. 

Onde está a linha entre a arte que merece – que carece – de alguém que discurse sobre ela, e a mera monetização do desperdício de tempo, a alienação e zombificação de mentes suscetíveis sem qualquer contrapartida para a valorização individual?

Não sei. Sei que não se escreve quase nada de valor sobre videojogos. Não se fala quase nada de valor sobre videojogos. É lixo sobre lixo, e quem lê isto a pensar que é excepção, desengane-se. A lei das probabilidades coloca-te nos 99.9%, não nos 0.1%. Mas eu também não sei fazer melhor. Somos todos formigas a sonhar que são gigantes – e somos assim por ignorância, por arrogância, porque não conhecemos os gigantes. Porque não conhecemos suficiente filosofia, música, cinema, literatura. Porque nos foi vendido um sonho de consumismo e luxúria como arte.

E é por isso que a ene3, no seu 16º aniversário, não está a funcionar.

Porque não vale a pena fazer algo quando não se o vai fazer bem. Não vale a pena ser mais um a berrar num mundo de ruído. 

Foram 16 anos de ene3. Não sei dizer ao certo quantas das coisas boas na minha vida surgiram da ene3, mas acredito que tenha sido a maior parte. Não sei se teria o trabalho que tenho hoje sem os conhecimentos que adquiri na ene3. Não sei se seria escritor, não tivesse sido o acesso a essa plataforma, que me permitiu praticar e levou a minha escrita aos jornais, à televisão, à rádio – aos leitores.

Muito obrigado a todos os que apoiaram, como colaboradores ou leitores ou ouvintes, pontualmente ou consistentemente, a ene3 nestes últimos 16 anos. Se alguma vez a ene3 regressar ao activo, será pela inspiração, pelo respeito, e pelo sentido de responsabilidade que sinto para convosco.