Reedição – Análise – Disgaea: Hour of Darkness

A análise que se segue foi originalmente publicada no longínquo ano de 2004, na primeira encarnação da ene3. Decidi dar-lhe o tratamento “HD Remake” visto que o jogo a que se refere será lançado no Steam amanhã, ficando pela primeira vez, disponível para PC.

Tanto quanto a produtora informou, as mecânicas do jogo estão largamente inalteradas, tendo apenas a interface sido actualizada e os gráficos retocados. Portanto, acredito que a seguinte análise poderá servir bem o leitor, quando considerar se deve comprar o jogo ou não.

Análise – Disgaea: Hour of Darkness

(2004)

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Do lado do Mal

Em Disgaea, acompanhamos Larharl, príncipe do submundo, na demanda pelo trono do seu falecido pai. Por razões desconhecidas, Larharl acorda de um sono de muitos anos para encontrar o seu pai morto, e o submundo dividido por vários demónios em luta pelo trono.

Assim, com a sua companheira Etna (que o acordou a custo de muitas espadas, machados e outras armas, chegando Larharl a pensar que se tratava de uma tentativa de assassínio), Larharl parte à conquista.

O argumento de Disgaea começa assim: diferente, engenhoso, e hilariante. As personagens principais são brilhantes. O seu humor é irreverente, inteligente, satírico e muito japonês!

Na verdade, algumas piadas podem-se perder devido às diferenças culturais… Mas no geral, o humor está muito bom, assim como o argumento na sua totalidade, que ora dá para o satírico, ora para o sério, sempre com excelentes resultados.

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Um mundo de sistemas e estatísticas

Chegamos então à parte mais ingrata de qualquer análise de Disgaea: o verdadeiro “tour de force” que é descrever o funcionamento de um jogo de estratégia por turnos com vários sistemas, com incontáveis nuances que fazem toda a diferença.

Disgaea é um jogo que consegue ser extremamente complexo, e ainda assim tornar-se acessível – se assim o desejarmos. É possível acabar o jogo sem usar muitos dos sistemas seguidamente descritos, mas para retirar total partido do jogo, é preciso dominá-los… E dedicar meses do nosso tempo livre.

A principal componente do jogo é a batalha estratégica, na senda de Final Fantasy Tactics (nota de 2016: pensem em “Fire Emblem” ou “XCOM”).

O castelo de Larharl serve como “hub” entre as várias zonas, e uma vez escolhida uma zona, temos acesso a um mapa, onde se dará uma batalha, depois da qual teremos acesso ao mapa seguinte, a assim por diante.

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As batalhas processam-se por turnos. No início da batalha, escolhemos da nossa equipa dez elementos, que colocamos um a um no campo de batalha. Todos os elementos entram a partir da mesma casa, pelo que é necessário movimentar um antes de escolher o próximo. Uma vez movidos todos os elementos da nossa equipa, é a vez dos nossos inimigos, e assim por diante.

Dentro do nosso turno, podemos mover as nossas personagens pela ordem que quisermos, e podemos deixar ataques e habilidades em “lista de espera”, de modo a que possamos desencadeá-los em conjunto. Isto é importante, por razões que serão explicadas de seguida.

Aqui, alem das magias, habilidades e ataques da praxe, temos algumas novidades dignas de interesse: dependendo da sua relação e classe, personagens em casas adjacentes à activa podem juntar-se a esta num ataque, originando combos espectaculares e devastadores, pelo que o posicionamento é algo muito importante.

Por outro lado, vários ataques/habilidades/magias utilizados consecutivamente num mesmo inimigo enchem uma barra de bónus, que no final da batalha servirá para ganhar equipamento, dinheiro, ou experiência extra.

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É também possível uma personagem pegar num inimigo ou aliado e atirá-lo, afastando inimigos ou ajudando aliados a moverem-se grandes distancias. Além disso, arremessar um inimigo para cima de outro do mesmo tipo causa uma fusão: um inimigo de maior nível, mas que dá mais experiência.

Finalmente, uma nota para uma componente de quebra-cabeças: em alguns mapas, existem casas coloridas, e pirâmides de cor correspondente. Cada pirâmide tem associada um efeito. Metendo uma pirâmide vermelha de “attack x2″, por exemplo, em cima de uma casa azul, faz com que qualquer personagem que esteja numa casa azul ataque duas vezes. Adicionalmente, destruindo essa pirâmide faz com que todas as casas azuis passem a vermelhas, e dá dado qualquer personagem que se encontre numa casa azul. Este dano pode inclusive destruir outra pirâmide, que desta vez converterá todas as casas vermelhas em casas da sua cor… Utilizar isto inteligentemente proporciona reacções em cadeia que podem eliminar todos ou grande parte dos nossos inimigos de uma só vez, e fazer a barra de bónus atingir o valor máximo.

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O Castelo de Larharl

Para além de servir para aceder às várias zonas e fazer compras, o Castelo é a porta de entrada para duas secções importantes, ainda que não fundamentais, do jogo: a Assembleia Negra e o Mundo dos Itens.

A Assembleia Negra é o equivalente à nossa Assembleia da Republica: aqui se reúnem vários senadores do submundo, sendo que o nível, estatuto e mana de cada personagem definem a sua importância e influência perante a assembleia. O estatuto pode-se subir participando numa batalha a solo contra examinadores, mas a mana, essa é ganha consoante o número de inimigos derrotados por essa personagem.

Quanto maiores estes parâmetros, mais propostas a personagem pode fazer à assembleia, sendo que as mais simples podem ser simplesmente um pedido de melhores itens na loja, e as mais dispendiosas (em termos de mana) podem ser mesmo um pedido de abertura de portais que levam a áreas extra.

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Uma vez gasta a mana para fazer o pedido, é necessário que o pedido seja aprovado, mediante uma votação. Não é necessário termos a maioria do nosso lado: podemos ter muitos senadores do nosso lado, mas perder se os mais influentes estiverem contra nós. Para evitar tal situação, podemos subornar alguns senadores com itens… Afinal, é de demónios que estamos a falar! (nota de 2016: Perdoem a ingenuidade, era jovem…)

Outra função importante da assembleia é a criação de personagens: as personagens de história são poucas, logo temos a oportunidade de personalizar o nosso exército. Temos inicialmente várias classes à nossa disposição, e à medida que as nossas personagens vão evoluindo nessas classes, mais vão ficando disponíveis, tal como versões mais poderosas de classes antigas.

Pode-se criar personagens mais ou menos poderosas, consoante a mana de que podemos dispender, ou converter uma existente a uma nova classe. Nesse caso ela começará a nível 1 na nova classe, mas trará consigo uma percentagem das estatísticas e habilidades da classe anterior, consoante o mana que investimos na mudança de classe.

Assim, é possível criar personagens poderosas e versáteis. Também podemos optar por criar monstros que já derrotamos para combater do nosso lado, sendo que quanto mais monstros de determinado tipo tenham sido derrotados, menos mana teremos que dispender para os criar.

Quanto ao Mundo dos Itens… Como se não bastasse o sem-fim de alternativas de criação e evolução de equipa que temos, neste jogo também é possível subir o nível dos itens, desde a mais poderosa espada ao mais reles chocolate.

Cada item tem um mundo lá dentro, que pode ter até 100 mapas gerados aleatoriamente, o que torna esta área do jogo… Infinita! A cada mapa que conquistamos, o item sobe um nível, e a cada dez defrontamos um “boss“, e temos a oportunidade de sair do item, estando este agora muito mais poderoso.

Alem disso, derrotando certos inimigos dentro de um item, chamados “especialistas”, desbloqueamos grandes bónus às várias características do item em questão, e podemos passar esses especialistas de item para item, de modo a que, quando arranjamos novas armas ou armaduras, podemos transferir-lhes grande parte do poder das anteriores.

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Um hino à animação japonesa

Graficamente, Disgaea é o sonho de um fã de animé. Os cenários são competentes e variados, com a excepção de “Item World”, repetitivos em virtude do seu cariz aleatório.

Mas as maravilhas do jogo são as personagens: alem dos carismáticos protagonistas, cada classe tem um representante de cada sexo, sobejamente desenhado ao melhor estilo anime SD, e os monstros não lhes ficam atrás.

Zombies, diabos, vampiras, pinguins explosivos e muitos mais, cada um com o seu estilo muito particular, todos simplesmente adoráveis. (nota de 2016: pinguins explosivos!)

Os ataques e magias mais simples são bonitos, os intermédios são espectaculares, e os “de topo” (a maioria dos quais só se conseguirão depois de muita hora de jogo, ou recomeçando após o final, mantendo o nível das personagens) são simplesmente incríveis, agarram em tudo o que veio antes dentro do género, queimam-no e mostram como se faz.

De referir que não só a grande maioria do diálogo é dobrado, como podemos optar pela dobragem inglesa, ou pela original em japonês.

Comentários finais:

Estamos perante um dos jogos mais complexos dos últimos tempos, mas neste caso grande parte da sua complexidade é opcional, e toda ela é extremamente divertida e contribui muito para a qualidade do jogo.

A variedade das mecânicas de Disgaea faz com que o jogo raramente se torne aborrecido (pois algumas viagens mais prolongadas em “Item World” podem ser desesperantes, mas, volto a salientar, são completamente opcionais), a sua história interessante e cheia de humor faz-nos querer avançar, a quantidade espantosa de classes para escolher e de habilidades para dominar assegura que há sempre algo para ver e fazer, e a sua apresentação e estilo surpreendem-nos constantemente.

A sua dimensão pode assustar alguns, mas com um pouco de paciência até o jogador mais perdido se sentirá à vontade no mundo de Disgaea.

O único defeito sério que consigo encontrar no jogo é a monotonia que o modo “Item World” se vai tornando, algo opcional se quisermos apenas acabar o jogo, mas imprescindível se queremos atingir os níveis necessários para explorar os mundos secretos e obter os poderes mais espectaculares.

Será o jogo da vida de alguns, e uma excelente experiência para muitos outros. Tal como diz na capa: “Strategy RPGs are about to get a serious kick in the ass!

Dito e feito.